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Vinicius de Moraes (1913-1980), poeta amante das palavras, da música popular brasileira, das mulheres, da boemia, faria 100 anos em 2013. Visitar sua obra e apresentá-la às crianças é um grande prazer. O compositor e diplomata dedicou um de seus livros de poemas aos pequenos: A Arca de Noé,  obra que vamos comentar no artigo a seguir.


A temática e os recursos expressivos d’Arca propõem jogos imaginativos e sonoros que seduzem o leitor em formação. Vamos percorrer o livro, observando aspectos importantes de alguns poemas e sugerindo ora uma interpretação voltada para os pequeninos, ora para alunos mais amadurecidos.

O livro abre com o poema homônimo ao título da obra, retomando o dilúvio bíblico que teria destruído tudo o que havia no mundo, exceto a arca construída por Noé. Após a tormenta, surge um cenário colorido, transparente, luminoso.

Sete em cores, de repente
O arco-íris se desata
Na água límpida e contente
Do ribeirinho da mata.

O sol, ao véu transparente
Da chuva de ouro e de prata
Resplandece resplendente
No céu, no chão, na cascata.

Sugestões sensoriais decorrentes da sinestesia mesclam efeitos visuais, sonoros, táteis e paladar, via “água límpida do ribeirinho”. Noé aparece:

E abre-se a porta da arca
De par em par: surgem francas
A alegria e as barbas brancas
Do prudente patriarca.

O “prudente patriarca” tem a sabedoria de quem já viveu bastante (“barbas brancas”), e o respeito de todos os animais: é o primeiro a sair da arca. Após a família de Noé, saem os bichos, em ruidoso movimento:

A arca desconjuntada
Parece que vai ruir
Aos pulos da bicharada
Toda querendo sair.

Vai! Não vai! Quem vai primeiro?
As aves, por mais espertas,
Saem voando ligeiro
Pelas janelas abertas.
Enquanto, em grande atropelo
Junto à porta de saída
Lutam os bichos de pelo
Pela terra prometida.

Os alunos das séries iniciais podem ler e repetir as estrofes que apresentam os vários bichos, embalados pelo ritmo do poema narrativo, imaginando seus elementos: a arca, Noé e a família, os bichos, a paisagem após a tormenta. Aos alunos mais maduros cabe sugerir, complementarmente, o caráter simbólico do poema, a partir do mito presente na cultura de vários povos, inclusive de algumas tribos indígenas. O Guarani, que José de Alencar publicou em 1857, narra os contatos iniciais entre portugueses e nativos, ocorridos em 1604. A jovem portuguesa Ceci e o valente índio Peri, ligados por grande amizade, são salvos do dilúvio, pairando acima das águas, sobre a folhagem de uma árvore, como símbolo da mescla de etnias que formaria nosso país.

O mito do dilúvio aponta para a reconstrução após a destruição, ilustrando a força da vida que renasce. O dilúvio associa a destruição pela inundação à ideia do batismo, do recomeço, da esperança. Um verso do mesmo poema sugere que os seres não são todos iguais:

Os maiores vêm à frente
Trazendo a cabeça erguida
E os fracos, humildemente
Vêm atrás, como na vida.

Em classes mais adiantadas, cabe um debate sobre desigualdade e “fraqueza”. Ela é sempre física? Existem outros tipos de força ou de fraqueza? Como são elas? É preciso sempre ter a cabeça erguida? Em certos momentos, valeria a pena ser humilde?

O poeta homenageia muitos animais. Além de ler trechos, convém a leitura completa do poema, seja pelo mestre, seja pelos alunos, cada um deles representando um dos bichos.

Jogos rítmicos

Especialmente propício a jogos rítmicos é O relógio. A onomatopeia reiterada oito vezes, rimas e repetições de palavras acentuam o ritmo:

Passa, tempo, tic-tac
Tic-tac, passa, hora
Chega logo, tic-tac
Tic-tac, e vai-te 
embora
Passa, tempo
Bem depressa
Não atrasa
Não demora
Que já estou
Muito cansado
Já perdi
Toda a alegria
De fazer
Meu tic-tac
Dia e noite
Noite e dia
Tic-tac
Tic-tac
Tic-tac

Para alunos menores, o poema seria aproximado da parlenda, jogo lúdico oral, por vezes também gestual. Convidados a localizar as repetições, eles exercitariam o reconhecimento de uma das características marcantes do poema: a reiteração de sons ecoando ao longo do texto e interligando suas partes.

Em classes de alunos do Ensino Fundamental II, conforme o nível da turma, seria viável uma reflexão sobre o passar do tempo: qual o papel do relógio? As pessoas mudam ao longo de dias, meses, anos? Como? Outro tópico trataria do risco da monotonia, possível causa da perda “da alegria”, pelo repetido “tic-tac” “dia e noite/ noite e dia”. O grupo seria convidado a propor sugestões para a quebra da rotina, saltando do texto para a vida real. Possivelmente, a busca de atividades diversificadas e de contatos com diferentes pessoas.

Efeitos similares estão presentes em poemas como A casa, O pato, A galinha d’angola, A pulga, nos quais ritmo e sonoridade embalam a leitura.

As abelhas, associando ritmo a recursos gráficos – repetição de letras – é um poema que sugere visualmente o zumbido do inseto, no início:

A aaaaaaabelha mestra
E aaaaaaas abelhinhas
Estão toooooooodas prontinhas
Pra iiiiiiir para a festa.

A abelha é vista de modo positivo: “brincar” e “valsar” com as flores aponta a polinização, na segunda e terceira estrofes; Na última, o convite e o elogio:

Venham ver como dão mel
As abelhinhas do céu!

O gato descreve o felino por meio de pistas de sua movimentação: ocasião para a atividade gestual e, ainda, para a ilustração da cena, por meio de desenho ou colagem. O jogo sonoro é associado às sugestões visuais.

Ponto de vista

Recursos sonoros e imagéticos enriquecem todos os poemas. Em alguns, envolvendo temas que pedem a reflexão compartilhada entre mestre e alunos. Em O peru, além de esboçar o retrato da ave, o poeta aponta para a questão do ponto de vista: a ave vê a si mesma de modo particular:

O peru se viu um dia
Nas águas do ribeirão
Foi-se olhando foi dizendo
Que beleza de pavão!

Para ampliar o repertório dos estudantes, deve-se comentar o tema do espelho, presente em lendas e histórias como Branca de Neve e Alice no país do espelho. E, também, o mito de Narciso, flor fascinada pela própria imagem refletida na água. Vale debater, ainda, como cada um de nós se vê e como os outros nos veem. Há semelhanças ou diferenças?

O tema da perda

Alguns textos abordam a morte. Por vezes, em tom leve, como ilustra A morte de meu carneirinho. Animais e “almas” reagem carinhosamente:

Cortejo lindo
Maior não houve
Do que o da morte
Desse amiguinho:
Iam vestidas
Com a lã das nuvens
Todas as almas
Dos carneirinhos.

A morte do pintainho, como informa o autor, retoma a canção inglesa de ninar Quem matou Cock Robin?. Organiza-se como parlenda – o final de um verso ou estrofe é retomado no início do(a) seguinte –, respondendo à questão do título: “Quem matou o pintainho?” ou “Quem o viu morto?” O verbo é substituído por outro, assim como o bicho que responde à pergunta: pato, mocho, morcego, aranha e outros. Ressalta, ao lado do evento triste, a solidariedade do grupo, a característica dos diferentes animais e o aparte do cisne em comentário metalinguístico bem-humorado:

Quem leva as coroas?
Eu, disse o cisne
Já que não dou rima
Eu levo as coroas.

Os versos 2 e 4 não apresentam rima consoante (vogais + consoantes), mas apresentam rima toante (apenas vogais): cIsne – rIma. Na verdade, o cisne dá rima, de modo diverso de outras que são consoantes. (pato-chato; aranha-artimanha; toupeira-coveira). O mais importante, com rima ou sem, é a homenagem, o fato de levar “as coroas” de flores.

Os bichinhos e o homem retoma o tema de modo abrangente, sério e irônico. Descreve vários animais, empregando o verbo no presente histórico que indica uma verdade permanente. Jogos sonoros e sugestões sensoriais predominam ao longo de seis estrofes, exceto na última que critica a pretensão humana, lembrando nossa finitude:

E o homem que pensa tudo saber
Não sabe o jantar que os bichinhos vão ter
Quando o seu dia chegar
Quando o seu dia chegar.

A interpretação abre vários caminhos, dependendo do nível da sala: i) o tom irônico, reiterado nos dois versos finais; ii) a importância das obras que realizamos e que ultrapassam o limite da vida; iii) o modo como quem partiu permanece na memória daqueles com quem  conviveu.

Ciclo da vida

O filho que eu quero ter apresenta uma composição circular: início e final se assemelham. Em 1ª pessoa verbal, o poeta confessa um desejo: a convivência com o filho sonhado, até que o filho, por sua vez, sonhe com o “filho que ele quer ter”.

Interpretação similar aplica-se ao poema de abertura A arca de Noé, assim como ao próprio mito do dilúvio: na saída da arca, tudo se renova, tudo recomeça, a vida retoma sua força.

* Todos os trechos foram reproduzidos do livro A Arca de Noé, da Companhia das Letrinhas.

* O livro foi gentilmente cedido pela Livraria Cultura (livrariacultura.com.br)