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Paulo Freire

No encerramento de uma série de encontros de formação com um grupo das equipes gestoras de uma rede de escolas públicas, informalmente uma diretora me disse: “Vamos sentir muita falta desses nossos encontros, pois antes, lá na escola, eu, a assistente de direção e a coordenadora pedagógica ficávamos em nossas salas envolvidas com nossas tarefas e raramente conversávamos. Agora, antes de nos lançarmos aos afazeres cotidianos, debatemos as questões e atividades do dia a dia, planejamos, refletimos e discutimos com professores e professoras. É outra coisa, nos tornamos cúmplices e companheiros. Até com as crianças, que, quando eram encaminhadas a nós, nem as deixávamos falar e só as repreendíamos. Aprendemos a ouvir e conversar com as crianças, a falar com elas“.


Deixando de lado a primeira impressão e reações de susto que a situação possa suscitar, o que fica forte na situação relatada é a constatação daquilo que, segundo Paulo Freire, desvela para nossa reflexão a questão da comunicação, não só na escola. A vida atual em sociedade, com toda sua pressa, induz à crença de que os aparatos tecnológicos facilitam a vida porque substituem os contatos interpessoais e colocam em desuso ou deixam quase sem valor o diálogo.

No entanto, segundo a diretora mencionada no exemplo, o que resgatou um caráter de melhora no ambiente de trabalho, humanizando-o de fato, foi exatamente a descoberta da conversa, do diálogo e da reflexão, a substituição do “simplesmente fazer comunicados, para o falar com”, nas palavras de Freire.

Em 2013, comemoraram-se os 50 anos de Angicos, o registro da primeira experiência de Paulo Freire com grupos de estudantes, no caso, adultos em processo de alfabetização. Merece destaque não tanto o “Método Paulo Freire”, mas sim a forma como a experiência escancarou e deu visibilidade à constatação ao seguinte fato: o que promove e acelera a aprendizagem é o processo que permite aos sujeitos se descobrirem e se perceberem como pessoas capazes de aprender, refletir, falar, contestar, discordar e se expor para defender ideias.

Ou seja, o que primeiro salta aos olhos é o diálogo como  instrumento mediador das relações entre os homens. Segundo Freire, “o diálogo é o encontro amoroso entre os homens”.

Na experiência de Angicos, no Rio Grande do Norte, o material utilizado pelos professores e professoras da equipe de Paulo Freire foi selecionado a partir de pesquisa a respeito do vocabulário mais utilizado pelas pessoas do grupo que iriam participar da alfabetização. Tudo isso, porque, ele mesmo nos diz: “Ensinar exige, primeiro, saber o que se vai ensinar e, em segundo, saber como ensinar.

Quer dizer, para ensinar, eu não preciso apenas saber o objeto que eu vou ensinar, mas saber como tratar o objeto que mediatiza os sujeitos que conhecem… eu tomo o pensar como objeto e reflexiono sobre ele. Mas, no momento que eu tomo o pensar como objeto para reflexionar, o pensar começa a constituir-se como um certo conteúdo sobre o qual eu vou ter que me perguntar, e isso passa a exigir uma mediação a mais. Isso é uma coisa extraordinária”.

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Na concepção de Paulo Freire, os “conteúdos de ensino” (ditos obrigatórios), em si mesmos são amorfos, sem vida se vistos apenas como conjunto de conhecimentos a serem transmitidos. Os conteúdos de ensino ganham sentido e significado através do olhar curioso e atento do docente e da inquietação que o move a desvelar e criar um jeito de ser comunicado ao grupo de estudantes, que, por sua vez, ao confrontá-lo como objeto de estudo, vão descobrindo as conexões que guardam consigo mesmos e  com a realidade onde se movem e convivem uns com os outros. Configura-se, dessa forma, o ciclo do ensinar e aprender que, por ser dialético, envolve docentes e discentes num movimento em que suas subjetividades se entrelaçam, se comunicam.

Pode-se afirmar que toda a teoria de educação de Paulo Freire está organizada em torno de alguns conceitos básicos: diálogo, reflexão sobre a prática, conscientização, relação com o outro, curiosidade, rigor, seriedade, registro, ética e estética. Em seus  escritos, ele vai nos desvelando nas diversas facetas ou dimensões em que se apresentam na vida cotidiana e nos instrumentalizando para transformar nossa prática docente, recriando-a e reinventando-a permanentemente.

Recusando-se a escrever livros ou manuais propositivos, explicando como fazer ‘o método freireano’, ele argumentava sempre que deveria ser uma tarefa de cada educador ou educadora a construção e organização de suas propostas. Para ele, qualquer docente precisa assumir como tarefa imprescindível a autoria de si mesmo como um educador ou educadora compromissados com a opção pela educação em qualquer nível em que ela se dê.

Na teoria de educação de Paulo Freire salta aos olhos o lugar de destaque que professores e professoras ocupam no processo de ensino e aprendizagem, uma posição exigente e séria, que implica muita responsabilidade e compromisso, iniciativa, ousadia, criatividade, confiança e esperança, e que, por ser assim, acaba por enredar a docência num movimento de entusiasmo e prazer, de encantamento e desejo, de crescimento e superação.

Certamente, ele gostaria de ver professores e professoras cultivando em si mesmos e em seus alunos a curiosidade que suscita e impulsiona o desejo e a vontade de aprender e ensinar.

Assim, no exercício de “curiosear”, a curiosidade ingênua se transformaria na “curiosidade epistemológica, a qual, tomando distância do objeto, dele se aproxima com o ímpeto e o desejo de desvelá-lo”. Se assim fizéssemos, teríamos nos transformado em recriadores e reinventores de Paulo Freire, sem dúvida alguma, um de seus sonhos mais queridos.

*Publicado originalmente em Carta na Escola