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Por Pedro Uczai


Na última semana, uma atividade realizada por uma escola particular no Rio Grande do Sul gerou polêmica nas redes sociais e no campo educacional de todo Brasil. A atividade chamada “se nada der certo” consistia num recreio temático, no qual os alunos deveriam ir fantasiados usando roupas características de profissões que representassem o “se nada desse certo”. Atividade semelhante já havia sido realizada em 2015 por um outro colégio em Porto Alegre.

O “se nada der certo”, que naquele contexto remetia à ideia de fracasso e vergonha, vinculou-se à atribuição das profissões representadas pelos estudantes por meio de suas fantasias. Os resultados da atividade foram estudantes usando roupas de gari, vendedor de fast food, empregada doméstica, cozinheira, porteiro, entre outras profissões de baixa remuneração.

A “brincadeira” expressou um vertiginoso preconceito de classe e uma discriminação grave para com todos aqueles e aquelas que com dignidade desempenham estas ocupações como forma de garantir seu sustento e sobrevivência. Os estudantes que ali se fantasiavam, provavelmente jamais precisarão recorrer a estas profissões como forma de sustento. Pelo contrário, terão as oportunidades que sua classe social lhes oferece. Caso não entrem num curso superior, poderão prestar vestibular novamente ou recorrer a um curso superior em instituição particular.

A atividade promovida pela escola é duplamente infeliz, preconceituosa e digna de repúdio. Por um lado, cria e reforça as hierarquias de valores entre os diferentes tipos de ocupações, colocando aquelas de menor remuneração em um patamar de inferioridade e subalternidade, como se fossem desprovidas de dignidade. Por outro, cria uma experiência quase que debochada e falaciosa da realidade daqueles estudantes, que como dito, pouco provavelmente um dia precisarão exercer aquelas ocupações que ali escarniavam.

O fato é que tal atividade expressa o preconceito de classe e o pensamento elitista que ainda estão intricados na elite brasileira, e que como se observa é reproduzido e legitimado na escola e nos processos educacionais que deveriam formar estes jovens.

O gari, o porteiro, a cozinheira e o vendedor, assim como todos aqueles e aquelas que exercem trabalhos braçais, insalubres, exaustivos e de baixa remuneração, ou seja, aqueles que são cotidianamente explorados pelo sistema capitalista de produção e que tem sua mais-valia usurpada pelos detentores dos meios de produção são considerados indignos, inferiores e fracassados pelo pensamento elitista.

Para o opressor, ou seja, para aquele que está nos níveis mais altos da pirâmide social e que detém os meios de produção e serviços, não há nada pior do que estar no papel do oprimido e do explorado. Contraditoriamente, o opressor tem ojeriza daquele que oprime e permite manter seu status quo.

Este mesmo tipo de pensamento é aquele que alimenta o discurso de ódio contra os partidos de esquerda, os sindicatos e os movimentos sociais no Brasil. A organização da classe trabalhadora, objeto de escárnio das elites, incomoda profundamente aqueles que historicamente detiveram o controle dos meios de produção, do poder econômico e do poder político.

Do ponto de vista da Educação, é lamentável que este tipo de atividade se dê no interior do ambiente escolar e seja legitimado pela instituição escolar. A Educação deve cumprir seu papel libertador e de desenvolvimento da consciência crítica para os educandos. O que se constata em atividades como esta é justamente a reprodução de preconceitos de classe e do olhar mercantil e referenciado única e exclusivamente no mercado de trabalho, explicitando a divisão de classe que existe em seu interior e conferindo juízos de valor a ela.

No lugar do desenvolvimento de uma consciência crítica e da problematização das desigualdades econômicas, educacionais e de oportunidades que se tem no país, o que se verifica é a conformação destes estudantes de classe alta e média alta ao papel que se espera que eles cumpram enquanto representantes destes grupos sociais. A diferença e a desigualdade são legitimadas e seus valores enquanto ideologia são reforçados pela instituição educacional.

Deixo, portanto, meu lamento em relação a este fato e a reflexão que dele se abstrai, denunciando a necessidade de que a Educação cumpra seu papel libertador e transformador e ao mesmo tempo manifestando a certeza da dignidade de todos os trabalhadores e trabalhadoras brasileiras que com muita coragem, trabalho e passando por cima de milhares de dificuldades e injustiças garantem seu sustento e de sua família. Estes sim mostram cotidianamente o que é dar certo na vida.

Já dizia o nosso maior Educador, Paulo Freire, “A humildade exprime uma das raras certezas de que estou certo: a de que ninguém é superior a ninguém. ”

Pedro Uczai é professor universitário e deputado federal (PT-SC).