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Créditos: Divulgação

O descontentamento com a educação tradicional é assunto mundial. A boa notícia é que iniciativas vêm surgindo nos quatro cantos do planeta para romper com velhos paradigmas. Mas como fazer essa transição? Como inovar, de modo que a transformação atenda toda a comunidade escolar? Como aplicar inovações que não sejam apenas tecnológicas?


Para o Projeto Âncora, escola localizada em Cotia, no interior de São Paulo, cada criança é um indivíduo único e deve ser tratado como tal. Não nos interessa as padronizações escolares convencionais de idade, séries e gênero. O que nos importa são os interesses dos educandos, suas necessidades, descobrir e encorajar suas aptidões e potencialidades, respeitando sempre sua história e sua cultura. Visamos o aprender sem paredes no convívio com os outros. O Âncora transborda a tradicional relação hierárquica entre mestre e discípulo. O aprender se faz junto, na troca de experiências, ideias, gostos e sonhos. Como meta tem-se o desenvolvimento da autonomia – a dos educandos e a dos educadores.

No Âncora, acreditamos que cada estudante deve ser protagonista de seu processo de aprendizado. Para ilustrar essa crença, trago como exemplo uma situação conduzida por Ana Carolina Santino, uma estudante de 12 anos que, há alguns anos, estudava aquecimento global em seu roteiro. Pesquisando sobre gases, ela entrou em contato com a tabela periódica. “Muitas coisas eu não entendia, eram coisas abstratas que não conseguia testar”, declarava a educanda, que então sonhou em montar um laboratório de ciências.

Com o auxílio e informações dos educadores da escola, ela soube que a Universidade de São Paulo (USP) estava doando vidrarias. Graças a esta doação, foi inaugurado algum tempo depois o laboratório do Âncora e o Grupo de Responsabilidade do mesmo. Ana Carolina integra até hoje esse grupo, ajudando outros jovens a entenderem conteúdos que ela já estudou. Com essa trajetória, além de aprender conceitos sobre física, química e biologia, a estudante faz uma autoavaliação: “Amadureci muito nesse processo. Precisei correr atrás para conseguir materiais para o laboratório e tive que falar com muita gente”.

Hoje, Ana participa de dois projetos de iniciação científica e ganhou um curso de “Química analítica quantitativa e qualitativa” na ETEC. Ela também participou do Projeto Garatéa, que levará um experimento para ser lançado pela NASA em 2019. Transbordar os nossos muros e utilizar os espaços que a cidade oferece são práticas na formação das Comunidades de Aprendizagem que estamos construindo.

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Foi em 23 de setembro de 1995 que o casal Regina e Walter Steurer fundaram o Âncora, como uma associação civil de desenvolvimento social com o desafio de melhorar a realidade de crianças e adolescentes de baixa renda do município e da região. Até 2012, o espaço atendia o contraturno escolar e oferecia oficinas, cursos profissionalizantes, creche e encontros de educação. Nesses encontros, o professor José Pacheco, fundador da Escola da Ponte, em Portugal, trouxe a possibilidade de materializar o antigo sonho do casal de ampliar a atuação da ONG para uma escola de ensino formal, mas nada convencional. O sonho foi, então, realizado: a Escola Projeto Âncora nasceu em 2012, logo após o falecimento de Walter Steurer.

Por meio dessa unidade educacional, sem fins lucrativos, privada e gratuita, somada ao trabalho já exercido na instituição, tornou-se possível guiar integralmente jovens e crianças com o centro de Educação Infantil, Ensino Fundamental I e II e Ensino Médio, além das diversas oficinas e dinâmicas que envolvem atividades físicas, arte, cultura e formação política. Estamos instalados em terreno de 12 mil metros quadrados que dispõe de uma infraestrutura com salas de aprendizagem, laboratórios, quadra de esportes, biblioteca, pista de skate, hospedaria, assim como áreas verdes, arborizadas com frutíferas e hortas.

Desde 2012, o Âncora já recebeu cerca de 13 mil visitantes nos programas de Transformação Vivencial, que organiza visitas guiadas para educadores conhecerem e se inspirarem com as práticas da escola. A crescente procura por essas visitas faz da escola referência internacional de uma nova educação. Hoje, estamos inseridos em importantes mapeamentos, como, por exemplo, o reconhecimento da escola em 2016 pelo Ministério da Educação como um dos 178 projetos de educação inovadores e criativos no Brasil. Além de outras premiações e citações em séries de TV e veículos de comunicação, cerca de 15 trabalhos de conclusão de curso e mestrados também foram realizados a luz do nosso trabalho.

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Em 2018, a novidade é que, a partir deste mês, passamos a integrar a comunidade de Escolas Transformadoras, uma iniciativa da Ashoka correalizada no Brasil pelo Instituto Alana. Estar nessa rede fortalece a convicção de que a educação – ainda ancorada nos ideais do século 19, e proferida por educadores do século 20 para seres humanos do século 21 – pede renovação já.

As crianças estão prontas para isto. Será que os educadores estão? E assim seguimos em rede, deixando mais perguntas do que respostas, mais inspiração e menos modelos. Sempre aprendendo e transformando. Se você já conhece o Projeto Âncora, venha nos visitar novamente, com certeza não somos os mesmos. Se ainda não conhece, será bem-vindo!

Ana Alcantara é jornalista, produtora, assessora de comunicação da Ong Projeto Âncora e mãe do Pedro e do Davi.