COMPARTILHE
Rubem Alves
Na obra do pensador, a ciência e o senso comum são expressões de necessidade básica

O teólogo, filósofo, cronista, psicanalista e educador Rubem Alves, professor emérito da Unicamp, faleceu no dia 19 de agosto, aos 81 anos, deixando um rico e variado legado para a educação. Quando conheci Rubem Alves, em 1983, ele fazia parte desde 1973 do quadro docente que consolidou a Faculdade de Educação da Unicamp.


Foi professor titular na área de Filosofia da Educação (1979), representante dos professores titulares junto ao Conselho Universitário (1980 a 1985), diretor da Assessoria Especial para Assuntos de Ensino (1983 a 1985) e diretor da Assessoria de Relações Internacionais (1985 a 1988). Em cada um desses momentos, Rubem registrou curiosos e simpáticos episódios de seu compromisso com a qualidade da educação e a democratização da universidade, tais como a defesa pela contratação de Paulo Freire, que retornava de seu exílio, como titular em 1981 e a organização da série de cadernos ilustrados sobre a qualidade do ensino intitulada Sabor e Saber.

Seu legado conta com grande número de publicações, entre livros sobre ciência, educação, filosofia e religião, crônicas, ensaios e contos, muitas delas voltadas para crianças. Dentre os livros destacam-se: Filosofia da Ciência, Conversas com Quem Gosta de Ensinar, Estórias de Quem Gosta de Ensinar, A Alegria de Ensinar (todos publicados pela Editora Ars Poética) e Entre a Ciência e a Sapiência (Edições Loyola).

O livro Filosofia da Ciência foi o primeiro texto de Rubem Alves que me fascinou pela linguagem coloquial e as formas como o autor retoma permanente diálogo com o leitor tanto nos seus escritos quanto com os ouvintes nas suas palestras e conversas. O livro aborda o diálogo entre diversos saberes, particularmente entre o senso comum e a ciência. Suas conversas têm a intenção de desmistificar a ciência, diminuindo as distâncias com o senso comum e combatendo as estruturas acadêmicas que criam hierarquias entre esses saberes.  

Entre ciência e senso comum há poucas diferenças, defende o educador. Em comum estão os problemas e a necessidade de resposta para perguntas que eles criam. “Todo pensamento começa com um problema (…)

O conhecimento só ocorre em situações-problema”, afirma o autor para colocar os saberes no mesmo patamar dos desafios da vida. E continua: “O senso comum e a ciência são expressões da mesma necessidade básica, a necessidade de compreender o mundo, a fim de viver melhor e sobreviver”.

As diferenças referem-se às especializações que a ciência desenvolve, a partir do senso comum, não sendo ela uma forma de conhecimento diferente. Pelo contrário, “a ciência é uma metamorfose do senso comum”. É uma especialização, um refinamento de potenciais comuns a todos. Esses destaques anunciam a necessidade do diálogo entre os saberes e a superação dos mitos com relação à ciência. O livro, além de gostoso de ler, oferece abundantes exemplos dos problemas da vida cotidiana, diversas formas de diálogo entre os saberes, destacando a importância da educação na construção desse diálogo.

Os livros Conversas com Quem Gosta de Ensinar e Estórias com Quem Gosta de Ensinar, assim como inúmeras crónicas, abordam a problemática do educador que se limita ao desenvolvimento de programas e a oferta de “cardápios” e de saberes sem gosto e sem sabor, que castram a imaginação e a fantasia e a paixão pela educação. Segundo Rubem Alves, ensinar a juntar saber com a vontade de sonhar. O saber sozinho gera tristeza e desmotivação. É preciso sonhar e cultivar a fantasia e a imaginação.

Assim, Rubem faz uso das metáforas de “escolas gaiolas” e as “escolas asas” para denunciar a educação formatada e programada que castra a imaginação e as fantasias das crianças e mata a capacidade de sonhar. Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. Escolas que são asas amam pássaros em voo e existem para dar aos pássaros coragem de voar. Ensinar o voo, porém, elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.

Um exemplo dessa escola é apresentado nas crônicas sobre a Escola da Ponte, em Portugal, que foi dirigida por José Pacheco, reunidas no livro A Escola Com Que Sempre Sonhei. A Escola da Ponte é um único espaço, partilhado por todos, sem separação por turmas. Todos partilham de um mesmo mundo. Todos se ajudam. Não há competição. Há cooperação. “O que vi na Escola da Ponte é o conhecimento crescendo a partir das experiências vividas pelas crianças”, conta Rubem.

Na obra, o autor afirma: “Quero uma escola que compreenda como os saberes são gerados e nascem. Uma escola em que o saber vá nascendo das perguntas que o corpo faz. Uma escola em que o ponto de referência não seja o programa oficial a ser cumprido (inutilmente!), mas o corpo da criança que vive, admira, se encanta, se espanta, pergunta, enfia o dedo, prova com a boca, erra, se machuca, brinca. Uma escola que seja iluminada pelo brilho dos inícios”. E, finalmente, ele conclui: “Quero ensinar as crianças. Elas ainda têm olhos encantados. Seus olhos são dotados daquela qualidade que, para os gregos, era o início do pensamento: a capacidade de se assombrar diante do banal”.

Dentre o seu legado podemos destacar uma importante lição para o educador que lida com diversos níveis dos saberes, desde o senso comum aos saberes especializados, devem ser traduzidos para uma linguagem simples e coloquial, ilustrada com exemplos cotidianos, que habilidosamente misturam saber com o sabor.

Tais habilidades Rubem Alves expressa em seus 120 livros e suas inúmeras crônicas. “Eu gosto de contar estórias. E que elas digam o que têm a dizer de forma curta e descomplicada. Não precisam de muitas explicações”, dizia. Confessa-se, assim, mais um cronista do que cientista.  “Não sou cientista. A ciência pensa por meio de conceitos abstratos. Eu penso por meio de imagens. São imagens que me fazem pensar. Mais do que isso: é por meio delas que tento ensinar.”

*Professor Titular da Faculdade de Educação da Universidade de Campinas (Unicamp)