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Créditos: Flickr/ Campos Felipe

Por Marcos Vinícius Almeida


“Eu sou o Capitão América!”, disse o Dudú — amigo do Joaquim, meu filho de três anos — e empunhou um escudo de plástico. O Joaquim pensou um pouco. Então pegou um galho no chão e disse: “Eu sou o Capitão Acab!” E apontou aquele galho como se fosse um arpão.

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Leio para o Joaquim desde que ele era bebê. Contos clássicos, mas também esses livros interativos e sensoriais. A leitura noturna se tornou um hábito incorporado a sua rotina diária. Algo tão importante como se alimentar ou escovar os dentes antes de dormir.

Quando ele fez três anos, pensei em iniciá-lo em uma das minhas narrativas favoritas: Moby Dick, o épico do norte-americano Herman Melville, que narra a caçada do obsessivo capitão Acab a uma monstruosa e terrível cachalote branca.

Narrada pelo marinheiro Ismael, Moby Dick é uma história cheia de reflexões filosóficas e de referências místicas. Em primeiro lugar, encontramos referências ao Antigo Testamento: o Livro de Jó, onde aparece a figura do Leviatã, uma espécie de monstro marinho descomunal, que foi derrotado por Deus; e também a passagem do profeta Jonas, milagrosamente engolido por uma baleia. Mas há também crenças pagãs, gnosticismo, cultos aos espíritos tribais, como do nativo Queequeg, o melhor amigo de Ismael.

A versão que comprei para ler para o Joaquim, adaptada por Fernando Nuno, contém uma série de gravuras assinadas pelo artista Nelson Cruz. Mais que ler o texto, é por meio das gravuras que vou reconstruindo a narrativa para o Joaquim. Uma versão que apenas eu e ele conhecemos. E que ele, sempre mais esperto que eu, decorou melhor: pois me corrige sempre, quando falta alguma frase ou expressão da história que inventamos juntos.

Se você conhece a história, deve se lembrar que Ismael conhece Queequeg numa espécie de hospedaria e eles terminam dividindo não apenas o mesmo quarto, mas a mesma cama. Nelson Cruz constrói duas imagens sobre esses momentos iniciais do texto. Numa delas, Queequeg e Ismael estão sentados no chão, com uma minúscula fogueira acesa no centro. Queequeg tem os braços lançados para cima, como que contando suas histórias. Ismael está na posição de quem escuta. Ao lado deles, há uma estátua pequena, escura, com uma cabeça humana, uma espécie de ícone que remete aos deuses ancestrais de Queequeg. Foi justamente por essa estátua que começou nosso debate teológico.

“O que é isso, papai?”, o Joaquim perguntou, colocando o dedo na estátua. Eu disse que era uma estátua que protegia Queequeg, uma estátua dos seus ancestrais, e que Queequeg rezava para eles.

“E o Ismael?”, ele perguntou. Eu disse que o Ismael vinha de outro país, um país diferente, e que por isso Ismael rezava para Deus, para Jesus, para seu anjo da guarda. Mas completei dizendo que havia também gente que não rezava para ninguém.

“Você reza, papai?”, ele insistiu. Eu disse que não rezava, e que cada pessoa e cada povo tinha um jeito diferente. E que mais importante que rezar era não fazer maldade para as pessoas e não guardar ódio no coração. “Eu também não rezo”, ele disse. E continuamos a história.

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Jean Decety, neurocientista e psicólogo da Universidade de Chicago, publicou recentemente um trabalho científico cujos resultados sugerem que crianças criadas em um ambiente familiar ateu são mais altruístas, éticas e generosas do que crianças criadas em famílias religiosas. Além disso, a pesquisa revelou que crianças religiosas são mais severas que as não-religiosas, na hora de condenar as outras crianças, por exemplo, quando sofrem um empurrão. [1]

O que essa pesquisa revela abala nossa crença mais imediata: a crença de que as pessoas de fé são pessoas melhores, “mais espiritualizadas”, “mais evoluídas” ou “guiadas por Deus”. Pelo contrário: além de uma educação religiosa não garantir um comportamento ético, pode mesmo ser um obstáculo à ética, fonte de preconceitos e de um punitivismo rasteiro.

Se o motivo que levou os ministros do STF a votar a favor do ensino confessional nas escolas públicas é garantir crianças mais éticas, o tiro saiu pela culatra. Religião e ética, como sugere o estudo Decety, não têm nenhuma relação de causalidade.

Uma visão antropológica — laica e histórica — das religiões é a única forma de propiciar a tolerância e garantir que nossos filhos possam respeitar a variedade de crenças existentes numa sociedade. Respeitar essas crenças e agir de maneira mais justa no mundo.

Pois a relação com o sagrado não é algo a priori, universal, tampouco inerente a todos os homens em todos os tempos. O sagrado, quando existe, é algo histórico, concretamente situado. Amala e Kamala, as meninas lobo, não tinham nenhuma dimensão do sagrado, nenhuma espiritualidade. A crença no sagrado e a espiritualidade são ensinadas, isto é, transmitidas. E no mais das vezes, a tradição e transmissão das religiões é tributária da violência: psicológica, física, simbólica. Pois antes de se ensinar as frases de uma oração, ensina-se a postura, o modo correto de se sentar diante de uma imagem, como se comportar no culto.

“Na verdade, Queequeg tinha a intenção de aprender as melhores coisas dos cristãos para levá-las na volta à sua ilha, com o sentido de ajudar a melhorar a vida de seu povo. A vida entre os marinheiros, porém, logo o convenceu de que os homens brancos eram tão selvagens como os canibais (…) ‘Maldade existe qualquer parte do mundo. Eu prefere continuar pagão’”.

Se olharmos para a história, ou seja, o modo como foram e são transmitidas as tradicionais grandes religiões do Ocidente — como o Cristianismo que predomina na nossa cultura — a paisagem é sombria: um império erguido por espadas banhadas de sangue. A religião, seja qual for, não tem nenhuma relação de causalidade necessária com o pensar e agir ético. Mata-se, e muito, em nome do Bem, de Cristo, e de Deus.

Vasculhando as caixas de comentários da internet, esses canteiros onde se semeia o ódio e o linchamento, palavras como “Jesus”, “Deus”, “família sagrada” são amplamente evocadas. Também não é difícil entender porque ainda hoje, no mundo, há tantas guerras religiosas, tantos atentados terroristas lastreados em crenças. Seria ingênuo olhar para esses crimes e afirmar que a causa é exclusivamente a maldade de indivíduos isolados ou de pequenos grupos de radicais psicóticos. É preciso encarar os fatos: há uma espécie de eixo duro em toda religião dogmática que favorece a intolerância e a violência.

Entender essas coisas é fundamental para evitar o preconceito religioso e a violência potencial que vem daí. Uma violência que temos presenciado no dia a dia, quando terreiros de religiões de matriz africana são destruídos, ou exposições são proibidas porque vão contra aos “valores cristãos”. E é também por isso que a escola pública — espaço social laico, da reflexão livre e crítica — jamais deve assumir uma perspectiva confessional. Como se pode pensar livremente sob a tutela de dogmas?

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Embora a literatura e a ficção não tenham obrigação nenhuma de educar, moralizar ou ensinar qualquer coisa, estudos científicos mostram que um dos efeitos colaterais de se ler ficção é nos tornar mais empáticos e solidários. [2]

A receita é simples: para além do conteúdo, a boa ficção nos desloca para longe do ego.

Se a religião nos ensina a “amar o próximo como a ti mesmo” (uma fórmula estranha, afinal: uma espécie de egoísmo universal) a ficção vai além: nos força ver o estranho, a assumir uma perspectiva que foge daquilo que experimentamos ao longo da vida, a pensar o mundo de outra forma, a desrespeitar as regras prontas.

Se uma boa ficção tem o potencial de nos levar a rever preconceitos — pois nos força a ver as coisas de um ponto de vista totalmente diferente da nossa realidade imediata —, a religião, por sua vez, trabalha sempre no plano do igual, da identificação, jamais no campo da diferença, do estranhamento.

Afinal, aquilo que foge do horizonte dos dogmas, que se desvia do caminho correto da fé, deve ser redirecionado, doutrinado: a ovelha desgarrada deve ser trazida para perto do pastor, ou seja, assumir um ponto de vista igual ao do rebanho.

De minha parte, sou propenso a acreditar que livros como Moby Dick talvez nos mostrem caminhos mais abertos, mais arejados e tolerantes, a respeito da vida e das crenças, do que os sermões dos sacerdotes. Pois se a religião aposta na frágil eficácia do conteúdo moralizante de suas frases, que são repetidas e decoradas com facilidade, mas que no mais das vezes produzem o contrário daquilo que pregam— a ficção, sem qualquer pretensão e obrigação de modificar nada, acaba por ser, pela forma como desloca nosso eixo de visão, uma experiência “mais elevada” do que qualquer religião.

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Marcos Vinícius Almeida é jornalista, mas escreve ficção. É autor do volume de contos Paisagem Interior (Penalux, 2017) e faz mestrado em Literatura e Crítica Literária, na PUCSP.

Referências:

[1] O bom samaritano é ateu, El País. 07/11/2015. Disponível em https://brasil.elpais.com/brasil/2015/11/05/ciencia/1446717405_450204.html Acesso: 31/10/2017.

[2] Ler ficção nos torna mais empáticos, El País. 19/07/2016. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2016/07/18/cultura/1468850653_180510.html Acesso: 31/10/2017

Moby Dick, Herman Melville. Texto adaptado por Fernando Nuno e com ilustrações de Nelson Cruz. Editora DCL, 2005. A citação acima está na página 21.