COMPARTILHE
O papel da língua é ser um arquivo do acervo cultural de uma população na preservação de sua identidade.

Por Éda Heloisa Pilla


A função de uma língua é servir como um meio de comunicação eficaz, e cuja eficácia pode ser melhorada, pois, como toda instituição humana, necessita de padronização e organização.

Grande parte das línguas modernas de hoje – mesmo as europeias – é resultado de intervenção e planificação por parte de linguistas, academias e comissões ortográficas ligadas a instituições científicas. São conhecidos vários casos nos quais intervenções organizadas tiveram êxito, como as línguas oficiais da Islândia e da Indonésia, o catalão (Espanha) e o português do Timor Leste. Quem cuida da língua e quem cria suas palavras são seus usuários. Só eles são responsáveis por sua preservação.

É bem verdade que algumas línguas podem desaparecer ou enfraquecer, ou pela extinção física de seus usuários (como o triste exemplo das línguas indígenas) ou pela dominação política de ditadores e/ou colonizadores, ao proibir seu uso, como no caso da Índia e das ex-colônias europeias da Ásia e África.

Em vários desses casos, a imposição da língua oficial do colonizador, até hoje, obriga seus usuários a falar sobre a própria cultura em uma língua que não é a sua. Desestruturaram-se as línguas nativas e, com elas, as referências culturais. Criou-se nova estratificação social, na qual os que falam a língua do colonizador, por isso mesmo, tornaram-se poderosos como os antigos dominadores.

O exposto acima nos conscientiza do incontornável papel da língua – um verdadeiro arquivo do acervo cultural de uma população – na preservação de sua identidade. A incapacidade de manter nossa língua poderia nos condenar à incapacidade de organizar nossas ideias.

Sem medo de errar, pode-se afirmar que as palavras da língua portuguesa do Brasil (o nosso léxico) estão impregnadas de significações únicas, e de tal forma ligadas a nossa identidade sociocultural que somente os brasileiros nativos podem percebê-las profunda e completamente.

Sendo assim, a língua se torna estratégica, um verdadeiro símbolo da soberania nacional e um bem maior do qual lançamos mão para transmitir os traços mais sutis de nossa personalidade social, política e literária.

Apesar de nossa extensão continental, temos o privilégio de falar a mesma língua (com algumas variações regionais, o que somente a enriquece), não obstante, temos outro perigo à espreita, a adoção indiscriminada de palavras e expressões do inglês.

Os novos colonizadores usam nova roupagem, a produção tecnológica, e, mesmo não estando fisicamente presentes como os de outrora, a comunicação instantânea e a imposição da chamada globalização (jamais totalmente definida, mas apregoada, ad nauseam, como um caminho irreversível) abriram a porteira para a invasão de termos estrangeiros.

Leia mais:
Dicionário Repaginado

Basta uma apreciação superficial para perceber o uso abusivo de palavras do inglês que invadem nossos meios de comunicação, para além do necessário e do razoável, dificultando ou impedindo o entendimento dos conteúdos.

Abro o jornal e vejo: a timeline do Facebook; serviços de streaming da Netflix; o brunch é especial; tea desserts para beber; o grande player do setor do agronegócio; sistema de gestão de compliance; transmissão Dual Clutch; multimídia touchscreen, airbag lateral e break light e assim por diante. Infelizmente, a proverbial criatividade do brasileiro não está sendo corretamente direcionada, pois mesmo lojas e marcas nacionais adotam nomes estrangeiros – Megastore, Kids & Fun, Pink Sport, Style and Beauty, Twin Set, Fashion Dog

E o que dizer de produtos de limpeza com nomes ininteligíveis e, muitas vezes, impronunciáveis para os falantes de português? Vanish e Easy Off para a limpeza da casa, Comfort para amaciar roupas, Close-Up para escovar os dentes, Oven Cleaner para limpar o forno do fogão. Se esses termos estivessem escritos em português, facilitaria bastante a nossa vida.

Continuando nossa coleta, vemos amostras de aberrações gratuitas e desorganizadas que aparecem por aí. Gratuitas porque podem ser traduzidas ou substituídas por equivalentes do português e não o são. Exemplo: pocket book por “livro de bolso“, workshop por “oficina”, delivery por “entrega a domicílio”, site por “sítio”, pet por “animal de estimação”, Sale por “liquidação”… Desorganizadas, porque algumas são traduzidas e outras não, sem nenhum critério aparente. Por que traduzimos leading edge technology por “tecnologia de ponta”, background por “pano-de-fundo” e não traduzimos fast-food por “comida rápida”?

Um exemplo do uso desnecessário, se não indevido, de uma expressão estrangeira é o da chamada fast-food. Sabe-se que ela foi (convenientemente) adaptada ao gosto brasileiro, ou seja, já não é mais a original. Fica claro, portanto, que a manutenção da palavra inglesa, não é garantia da preservação de seu conteúdo, como insistem os adeptos do estrangeirismo, pois, seja em inglês seja em português, ela será forçosamente adaptada ao nosso meio, física ou intelectualmente. Conclusão: traímos nossa grafia e nossa fonologia para nada. Distorcemos nossa língua, menosprezamos nossas raízes, depreciamos nossa cultura, desrespeitamos a estrutura de significações que subjaz às nossas palavras apenas para copiar as de outra língua, e que pronunciamos de forma sofrível.

Historicamente, sempre existiram empréstimos para nomear conteúdos inexistentes na cultura receptora – os chamados xenismos – mas, quando se tornaram parte de nossa realidade, eles foram ou naturalizados ou rebatizados com palavras nacionais. Exemplos do esporte: “time” (para team), “goleiro” (para goalkeeper), “escanteio” (para corner), “impedimento” (para ffside).

Resumidamente, na língua portuguesa, o surgimento de palavras novas sempre ocorreu de quatro formas: primeiro, por criações endógenas, feitas por falantes comuns ou por especialistas, diante da necessidade de denominar novas entidades semânticas aqui geradas (ex.: arborismo, feminicídio, gastança, vale-refeição); segundo, por traduções; terceiro, por adaptações gráficas e fonológicas de empréstimos (ex.: camicase, apartaide, estrogonofe, suflê, nocaute, abajur, leiaute) e, quarto, por neologismos semânticos, expressões já existentes, porém com novo sentido (ex.: antivírus, página, hipertexto, disco-rígido).

O preenchimento indiscriminado de nossos nichos lexicais com palavras estrangeiras apresenta uma face ainda mais preocupante, pois, com elas, importamos também sentidos, que muitas vezes não condizem com a estrutura conceitual da nossa língua. Como já foi dito, e demonstrado pelos estudos e prática da tradução, o paralelismo semântico entre as línguas é, na realidade, impossível em sua totalidade (já comprovado por Umberto Eco em seu livro ”Quase a Mesma Coisa”), ou seja, dificilmente duas expressões, em duas línguas diferentes, usadas para se referir à mesma coisa, descrevem exatamente essa mesma coisa em cada uma das línguas. Isso ocorre não pela diferença da palavra em si (ela é apenas uma etiqueta), mas pelo ângulo de percepção do sentido dessa última (o que Hjelmslev chamou de forma do conteúdo), já que cada língua faz o seu próprio recorte da realidade – a sua visão de mundo – por meio da qual percebemos e concebemos essa realidade, e que constitui, em última instância, o cerne da diversidade linguística.

Se pensarmos que a supremacia do inglês sobre as outras línguas é um fenômeno que tende a se ampliar, essa impregnação de nossas estruturas pode significar um estágio bastante avançado de desestabilização da língua e, consequentemente, da malha de significações atreladas às nossas palavras, como normas de comportamento, valores, ideias e assim por diante. Se todos falassem a mesma língua e pensassem da mesma forma, o mundo não existiria.

Um alerta perigoso nos mostra que já se insinua uma tendência extrapolando a área meramente lexical (da palavra). Primeiramente na sintaxe lexical, com extravagâncias do tipo rebolation e massacration, mas, também, na excrescência hackeando, presumivelmente criada a partir do “verbo” hackear, que nem em inglês existe.

Outro dia ouvimos alguém dizer: eu paniquei. De início, machucou o ouvido, pelo estranhamento do verbo. A desolação não foi menor quando constatamos, ao final, que uma convenção sintática do português (que equivale a uma regra) estava sendo violada por influência do inglês. A nossa construção “entrar em pânico” (a única possível) havia sido contaminada pela do inglês to panic. Ora, a sintaxe é o núcleo duro das línguas, e, por isso mesmo, uma marca intocável de sua integridade. Se, por um lado, os falantes de inglês usam to panic para a nossa expressão “entrar em pânico”, nós usamos “suicidar-se” para to commit suicide (a única aceitável para o inglês). E ponto final.

No afã de imitar modelos de outra língua, fortifica-se a ideologia da superioridade linguística, a tal ponto que o que tem nome brasileiro já não tem grande valor. Parece que as nossas palavras perderam sua capacidade denominativa. É lamentável a complacência dos brasileiros diante da situação que se instalou. Ao contrário, a maioria não ousa confessar o que não entende, como se desse um atestado de sua ignorância (afinal, que tipo de pessoa é você que não sabe inglês?) e adere, pateticamente, à nova moda. Me pergunto se aqueles que usam expressões do inglês sabem exatamente o que estão dizendo.

Uma nova palavra acolhida em português, bullying, é, para nós, tão estranha em sua forma quanto em seu conteúdo. Por não poder ser traduzida literalmente, manteve sua forma original, e, por ser recente, muitos acham que se trata de um fenômeno novo, quando, na realidade, ele sempre existiu. Uma maneira exemplar do que deve ser feito nesses casos foi a que detectamos, no jornal, com dados da Secretaria Estadual da Educação, relativos à Violência Escolar, onde são enumerados todos os itens aí incluídos, desde indisciplina em sala de aula, agressão verbal ou física aos servidores, violência física e verbal entre alunos, depredação da escola, racismo, preconceito e outros. Trata-se de uma atitude correta: criar uma expressão transparente, pensando diretamente em português, e definir seu conteúdo da forma mais completa possível, conforme ele ocorre em nosso meio.

A observação do fenômeno de importação de anglicismos, em outros países, ensejou, recentemente, a um dos últimos baluartes da idade de ouro da linguística, Alain Rey, linguista francês, 88 anos, revisor do Dicionário Petit Robert e autor do último dicionário histórico da língua francesa, a seguinte frase: “ Aujourd-hui, il y a deux catégories de langues: les langues mortes – le latin et le grec – et les langues malades” (Hoje, há duas categorias de línguas: as línguas mortas – o latim e o grego – e as línguas doentes).