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Por Rafael Parente


Muitas pesquisas em todo o mundo buscam identificar as estratégias de ensino mais efetivas, que geram mais aprendizagem. O status socioeconômico é um preditor importante dos resultados acadêmicos de um aluno. Alunos de classes socioeconômicas mais altas geralmente conseguem aprender mais, em menos tempo, do que os de classes mais baixas, por uma série de motivos. Entre eles estão: a participação da família na vida educacional do aluno, o número de vocábulos e os hábitos de leitura de pessoas próximas.

No Brasil, é possível perceber esse abismo entre alunos ricos e pobres nas estatísticas educacionais. Em 2013, o INEP realizou uma análise comparativa dos resultados da Prova Brasil de alunos de diferentes níveis socioeconômicos. A análise mostra que a diferença das notas entre os alunos 20% mais pobres e os 20% mais ricos do 5.º ano em português foi de 42 pontos, com um crescimento de 110% em 8 anos. Em matemática, a diferença avançou de 20 pontos para 47 no mesmo período, um aumento de 139%. O Inep também comparou o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), termômetro oficial da qualidade educacional, entre escolas semelhantes que atendem alunos de famílias com rendas baixa e alta. A diferença foi de cerca de 60%.

As desigualdades nos desenvolvimentos educacionais, socioeconômicos e humanos são históricas e perenes em nosso país, mesmo com o artigo 5o. de nossa Constituição assegurando a todos o direito à igualdade. Para aumentar a equidade educacional, urge melhorar a aprendizagem dos alunos mais pobres, promovendo oportunidades educacionais semelhantes ou melhores àquelas de alunos que frequentam escolas “de elite”. Precisamos de ações afirmativas, oferecendo o que temos de melhor a quem mais precisa. Neste contexto, é essencial, dentre outras coisas, rever as metodologias e estratégias didáticas utilizadas pelos professores.

Uma meta-análise publicada recentemente (janeiro de 2017) buscou identificar as melhores estratégias de ensino para alunos de baixo status socioeconômico (das classes D e E) em escolas de ensino fundamental e médio. A análise incluiu 101 pesquisas realizadas de 2000 a 2014 em países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que mediram resultados de aprendizagem por meio de testes padronizados em matemática ou leitura. Algumas estratégias pedagógicas mostraram que é possível melhorar substancialmente a aprendizagem destes alunos. As quatro melhores estratégias para isso, de acordo com esta meta-análise, são:

  • Reforço individual ou para pequenos grupos (de até 5 alunos). As ações de reforço escolar foram conduzidas por voluntários, professores sem formação ou com formação, geralmente com programas de ensino bem estruturados e implementados durante 12 a 20 semanas;
  • Monitoramento de progresso e feedback. Nestas ações, os alunos e seus professores recebiam informações detalhadas sobre a aprendizagem de cada aluno para customizar as intervenções pedagógicas para necessidades individuais;
  • Turmas bem pequenas. As intervenções que utilizaram estas estratégias limitavam bastante o número dos alunos para as turmas, que tinham entre 5 e 15 alunos;
  • Aprendizagem colaborativa. Neste caso, as estratégias incluíam a organização dos alunos para que eles trabalhassem em pares ou pequenos grupos de forma sistemática e estruturada. Os alunos atuavam como monitores entre si, com alunos mais avançados auxiliando os alunos com mais dificuldades.

A nova Base Nacional Comum Curricular oportuniza mudanças nas estratégias de ensino ao oferecer um currículo mais atual e adequado para as novas gerações. É um momento propício para reavaliar técnicas e materiais didáticos e fomentar a parceria entre governos e iniciativas de impacto social inovadoras, que podem ajudar neste processo de “modernização” da escola e dos sistemas educacionais.

Um dos exemplos é a Conecturma, a única metodologia transmídia no Brasil de língua portuguesa, matemática e competências socioemocionais, que já foi utilizada por 5 mil alunos de escolas públicas e privadas em 6 estados brasileiros. A meta é chegar a 190 mil alunos até 2021.

A Conecturma combina tecnologias tradicionais com as novas tecnologias de comunicação e informação, o potencial de uma narrativa completa com gamificação, materiais didáticos semi-estruturados com formação continuada para professores, os elementos mais atraentes para as crianças com as últimas descobertas das ciências cognitivas. Com isso, sua implementação tem gerado um aumento de pelo menos 30% nos resultados de aprendizagem de língua portuguesa e matemática. Na Escola Municipal Jerônimo Porto, em Viamão (RS), por exemplo, o aumento na aprendizagem após o início da implementação foi de 50% e 60% em língua portuguesa e matemática, respectivamente, de acordo com dados da Secretaria Municipal de Educação para 2016.

A plataforma digital incluída na metodologia é adaptativa e gamificada, gerando relatórios individuais de cada aluno. Estes relatórios mostram, com clareza, o que cada aluno está aprendendo ou deixando de aprender, e auxiliam na criação de intervenções precisas de reforço individual ou para pequenos grupos. Além disso, 40% das atividades da metodologia (tanto nos livros didáticos quanto nos jogos digitais) incentivam a aprendizagem colaborativa com trabalhos em pares ou pequenos grupos.

Uma transformação positiva de nossas práticas educacionais, escolas e sistemas é urgente e precisa incluir um olhar especial para os alunos mais vulneráveis e metodologias mais adequadas para os tempos atuais. O tamanho e a complexidade dos problemas requerem uma atuação sistêmica, que envolva todos os atores da comunidade escolar. Queremos e desejamos ter alunos e professores motivados e engajados, fazendo parte de um ecossistema inovador, que trata os desiguais de forma desigual para que tenhamos uma realidade mais justa, fraterna e igual o quanto antes.

Rafael Parente é doutor em Educação pela Universidade de Nova Iorque e CEO da Aondê/Conecturma.