COMPARTILHE

Em 1938, o sociólogo Gilberto Freyre publicou o breve artigo “Foot-ball mulato”, depois reproduzido em seu livro Sociologia. Ali, caracteriza o estilo brasileiro de jogar o moderno football association como “dionisíaco” em contraposição ao estilo “apolíneo” de seus inventores. Para ele, nosso estilo caracteriza-se por “um conjunto de qualidades de surpresa, de manha, de astúcia, de ligeireza e ao mesmo tempo de espontaneidade individual, que arredondam e adoçam o jogo inventado pelos ingleses”.


Impressionado com o desempenho da seleção na Copa do Mundo da França, Freyre atribui status de arte ao estilo brasileiro, duas décadas antes de nossa primeira conquista mundial, ao mesmo tempo que lhe dá sentido antropológico. E abre caminho para as análises culturalistas, inclusive de autores estrangeiros. Com isso, a arte dos nossos “bailarinos da bola”, como ele próprio se referiu aos jogadores brasileiros de descendência africana em Sobrados e Mucambos (1936), é reconhecida.

Em 1956, o estudioso Anatol Rosenfeld publicou na Alemanha o artigo Futebol no Brasil. Editado anos depois no livro Negro, Macumba e Futebol, o texto traz uma breve história do futebol brasileiro e aborda aspectos econômicos e psicossociais de nossos clubes, jogadores e torcidas. Pode-se dizer que se constitui em marco inicial dos estudos estrangeiros sobre o nosso futebol.

Após a Copa de 1970, o cineasta Pier Paolo Pasolini escreveu acerca da final Brasil-Itália. Para explicar a supremacia brasileira, que venceu por 4 a 1, compara o nosso estilo à poesia e o italiano à prosa, na medida em que o brasileiro privilegia o gol, o drible; e o italiano, os esquemas táticos, o passe. Anos depois, em Era dos Extremos, o historiador Eric Hobsbawm indagaria, já respondendo: “Quem, tendo visto a Seleção Brasileira jogar em seus dias de glória, negará sua pretensão à condição de arte?” A mesma direção tomaria o escritor Nick Hornby em suas memórias de torcedor, retratadas em Febre de Bola. Pasmo com a inventividade dos brasileiros, refere-se ao nosso futebol como “ideal platônico” inatingível.

O olhar do “outro” sobre “nós” também está em A Loucura do Futebol, da socióloga Janet Lever, que investigou a paixão nacional nos anos 1970-1980. Já em Um Jogo Inteiramente Diferente! A maestria brasileira de um legado britânico, o jornalista Aidan Hamilton abordou os primeiros anos do futebol no Brasil e o impacto das visitas de clubes ingleses antes da Copa de 1950 ao País. Sem deixar de fazer referência à história, mas centrado no presente, o jornalista Alex Bellos escreveu Futebol: O Brasil em campo.

futebol-jogo

A introdução do futebol no Brasil deu-se de diversas maneiras e teve muitos protagonistas. Isso ocorreu nas duas últimas décadas do século XIX. Já a sua institucionalização ganhou fôlego a partir dos anos 1930. Tal período envolve importantes fatos de nossa história, como a Abolição da Escravatura (1888), a Proclamação da República (1889) e a  Revolução de 1930, momentos decisivos para a construção de nossa identidade nacional. O que mostra o quanto o estudo sobre o futebol pode ajudar a compreender e explicar o País.

Também essa história tem seu mito fundador. Em História do Futebol Brasileiro (1894-1950), de 1950, o jornalista Thomaz Mazzoni defende a ideia de que foi o paulista Charles Miller, descendente de britânicos, o introdutor do futebol no País, em 1894, após retornar de estudos na Inglaterra. Mais recentemente, em Visão do Jogo, José Moraes dos Santos Neto mostra por que tal tese pode ser vista como “invenção de tradição” no sentido empregado por Eric Hobsbawm e Terence Ranger. O autor defende que o futebol chegou ao Brasil também por meio de educadores religiosos e empresários ingleses do ramo ferroviário.

Sob influência de Gilberto Freyre, o jornalista Mário Filho escreveu o clássico O Negro no Futebol Brasileiro. Publicado em 1947, o livro ganhou versão ampliada e definitiva em 1964. Para que se tenha noção de sua importância, e da influência de Freyre, basta lembrar que muitos o chamam de Casa-Grande e Senzala do futebol. Nos últimos anos, o livro de Mário Filho ganhou novos leitores, sobretudo de origem acadêmica, que discutem sua validade como fonte histórica. É disso que trata A Invenção do País Futebol, de Antônio Jorge Soares, Ronaldo Helal e Hugo Lovisolo.

Em suas crônicas, Nelson Rodrigues também relacionava o futebol com nossa identidade nacional. Os livros À Sombra das Chuteiras Imortais e A Pátria em Chuteiras, organizados por Ruy Castro e publicados nos anos 1990, e os mais recentes O Berro Impresso das Manchetes e O Brasil em Campo, este organizado por Sônia Rodrigues, trazem dezenas de crônicas. A socióloga Fátima Martin Antunes analisou a obra de Mário, Nelson e José Lins do Rego no livro Com Brasileiro, Não Há Quem Possa!

Já em Histórias do Futebol, o jornalista João Saldanha, treinador da Seleção em 1969, narra sua trajetória no Botafogo, nos anos 1950-1960, e episódios envolvendo craques de seu time, além de desvendar os subterrâneos do nosso futebol. O sucesso e a agonia do gênio Garrincha são dissecados pelo jornalista Ruy Castro em Estrela Solitária. Ao lado da autobiografia Eu e o Futebol, de Almir Albuquerque, “o Pernambuquinho”, o livro de Castro é uma das principais fontes biográficas para conhecer a vida por inteiro de nossos mitos e os bastidores do futebol nacional.

Com o regime militar (1964-1985) em fase terminal, entraram em campo os cientistas sociais. Publicados em 1982, Universo do Futebol, dos antropólogos Roberto DaMatta, Luiz Felipe Baêta Neves, Simoni Lahud Guedes e Arno Vogel, e Futebol e Cultura: Coletânea de estudos, organizado por José Carlos Meihy e José Sebastião Witter, com a colaboração de brasilianistas, são livros que ajudaram a superar o preconceito da academia.

A partir de 1990, duas importantes revistas acadêmicas dedicaram edições ao futebol, então centenário no Brasil. A Revista USP trouxe o “Dossiê Futebol”, com artigos de José Sérgio Leite Lopes, Nicolau Sevcenko e outros. E Estudos Históricos, o “Dossiê Esporte e Lazer”, com textos de especialistas brasileiros e estrangeiros.

A própria Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) se mostrou sensível às mudanças. Desde então, premiou e publicou trabalhos sobre dois temas emergentes. As Torcidas Organizadas de Futebol, de Luiz Henrique de Toledo (1996), é obra pioneira sobre esses atores sociais. E Do Dom à Formação, de Arlei Damo (2006), aborda o processo de formação de jogadores nas divisões de base dos clubes profissionais.

A partir dos anos 2000, tem início um boom de livros sobre o futebol. Lógicas no Futebol, do antropológo Luiz Henrique Toledo, trata de vários aspectos, inclusive do surgimento, da evolução e dos significados das regras. Em Footballmania, Leonardo Pereira faz uma história social das primeiras décadas do esporte no Rio de Janeiro. Já História do Esporte no Brasil, organizado por Mary Del Priore e Victor Andrade de Melo, é uma coletânea que abrange todo o século XX, e Nações em Campo, organizado por Édison Gastaldo e Simoni Guedes, traz artigos abordando a identidade nacional em tempos de Copa do Mundo.

Vale a pena citar mais dois: Veneno Remédio: O Futebol e o Brasil, de José Miguel Wisnik, e A Dança dos Deuses: Futebol, sociedade, cultura, de Hilário Franco Júnior. O primeiro é um longo ensaio sobre o futebol no País e o segundo, um estudo mais amplo que aborda os primórdios do esporte na Inglaterra e os impactos sociais e culturais causados até os dias atuais.

O fato de o Brasil sediar os principais megaeventos esportivos mundiais fez o tema ser incorporado à bibliografia. E vários livros estão sendo lançados. É possível que a leitura dessas obras ajude a entender o sentimento e o som das manifestações de rua em torno de sua realização.

Túlio Velho Barreto é pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) e vice-coordenador do Núcleo de Sociologia do Futebol (Nesf-Ufpe/Fundaj). Já publicou artigos científicos sobre futebol na Inglaterra, México, Argentina, Colômbia e Brasil e de opinião em várias revistas e jornais brasileiros.

*Publicado originalmente em Carta Fundamental