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Não há dúvidas de que vivemos em uma sociedade cada vez mais plural, diversificada e multicultural. O panorama educacional não está alijado desse fenômeno e, por conseguinte, está adquirindo novas características que se traduzem na presença de grupos de alunos cada vez mais heterogêneos. Somando tudo isso ao atual contexto de inclusão escolar, no qual os professores tentam se adaptar da melhor forma possível à diversidade, torna-se pertinente refletir sobre os princípios e as possibilidades ofertadas pela pedagogia diferenciada.


O que é a pedagogia diferenciada? Na verdade, não existe um consenso sobre a definição do termo, que pode ser definido como um instrumento, uma filosofia, uma abordagem, uma estratégia de adaptação do currículo ou até mesmo como um modelo de gestão de sala de aula. Apesar das diferenças de opinião a respeito de uma definição, é possível identificar um objetivo comum, ou seja, fazer com que a aprendizagem seja acessível e bem-sucedida para todos.

Para Perrenoud, a pedagogia diferenciada é uma abordagem centrada no aprendiz e em seu percurso de aprendizagem. Implementar uma “educação sob medida”,  conforme esse autor, é  “um sonho de todos aqueles que acham absurdo ensinar a mesma coisa no mesmo momento, com os mesmos métodos, a alunos muito diferentes”.

De maneira mais concreta, a educadora inglesa Carol Ann Tomlinson afirma que a pedagogia diferenciada corresponde aos esforços do professor em responder às ­diversidades dos alunos na sala de aula. A partir do momento que um professor adapta ou modifica seu ensino para criar a melhor situação de aprendizagem possível, ele está no processo de diferenciação de sua pedagogia.

Como diferenciar? Primeiramente, é preciso vencer a tendência determinista de que aprendizagem e sucesso escolar são questões de talento e habilidade. Essa falsa crença vem sendo desafiada desde a década de 1970, por meio de resultados da pesquisa de Benjamin Bloom. Seu trabalho mostrou que um professor pode levar a maioria de seus alunos ao sucesso escolar se ajustar sua forma de ensinar e o ambiente de aprendizagem. Para Philippe Meirieu, toda criança é educável, e o autor aconselha: “Aquele que não acredita na educabilidade de seus alunos faria melhor se mudar de ofício”.

Do mesmo modo, é preciso ter consciência de que diferenciar é aceitar o fato de que não há receitas ou soluções mágicas, porém, existem elementos a serem considerados pelos profissionais da educação tratando-se de pedagogia diferenciada, tais como:

1) Conhecer o ambiente escolar
Quais recursos materiais estão disponíveis? Muitas vezes trabalhamos anos em uma mesma escola, mas não temos conhecimento de todos os recursos oferecidos por ela. Novas tecnologias de informação, uma coleção de livros empoeirados ou um jogo esquecido na prateleira poderão ser ideais para colocar em prática o processo de diferenciação.

Que recursos humanos estão disponíveis? O professor precisa ter conhecimento do apoio oferecido pela escola em que atua, como se ela dispõe de professores auxiliares para assessoria em sala de aula.

2) Conhecer os alunos 
Uma pedagogia diferenciada começa pelo conhecimento profundo dos alunos, tanto individualmente quanto em grupo. É importante criar ocasiões para conhecer as forças, as necessidades, os interesses, as preferências e as formas de aprendizagem de cada aluno.

3) Conhecer o currículo 
Sabendo que a pedagogia diferenciada se fundamenta no reconhecimento de que os alunos aprendem em ritmos diferentes e de formas variadas, pressupõe-se que as atividades e avaliações sejam diferenciadas para aqueles que necessitam de tal adaptação. Para realizar uma empreitada como essa, é imprescindível conhecer o currículo. Sabendo as competências e habilidades que deverão ser adquiridas ao longo do ano escolar, torna-se mais fácil diferenciar as atividades e avaliações.

4) Trabalhar em equipe
O trabalho em equipe dos profissionais da educação é elemento essencial para a ­concretização da diferenciação pedagógica nas escolas.

5) Planejar
A pedagogia diferenciada requer rigor, antecipação e organização. Isso inclui a previsão das atividades da aula e dos segmentos de cada atividade de modo a preparar instrumentos adequados de trabalho e na pesquisa de novas abordagens disciplinares como resposta às necessidades didáticas.

6) Oferecer diferentes formas 
de aprendizagem
Para Perrenoud, toda situação didática proposta ou imposta de maneira uniforme a todos os alunos será fatalmente inadequada para um grupo deles. Por essa razão, o fato de oferecer uma grande variedade de atividades permite ao professor atingir um número maior de alunos.

Enfim, nos resta saber como a pedagogia diferenciada se concretiza na prática. Para a inglesa Tomlinson, não existe uma fórmula única para a prática da pedagogia diferenciada, já que, segundo ela, diferenciar é simplesmente responder às necessidades dos alunos. Ou seja, o professor adapta e modifica o currículo, os métodos, os recursos, as atividades e as produções dos alunos, considerando as diferenças entre eles. A partir desses princípios, a autora aponta quatro aspectos que o professor pode diferenciar em sala de aula: conteúdo, processo, produção e ambiente de aprendizagem.

Os conteúdos representam o que os alunos devem aprender e compreender, sempre ­levando em consideração as características de cada um. Muitas vezes, é preciso adaptar os conteúdos com o intuito de deixá-los menos complexos e mais significativos para a aprendizagem de todos.

Já o processo é definido pelo conjunto e a diversidade de atividades que permitem ao aluno se apropriar dos conteúdos e compreendê-los em profundidade. As produções ­referem-se ao meio pelo qual os alunos podem demonstrar e reforçar sua aprendizagem.

Por fim, Tomlinson enfatiza a necessidade de criar um ambiente de aprendizagem onde o professor promove a aceitação dos outros, a cooperação e o apoio mútuo entre os alunos. A relação professor-aluno também deve ser levada em consideração, já que um professor afetivo e compreensivo age como mola propulsora do desenvolvimento intelectual de seus alunos. Além disso, o professor deve considerar o ambiente físico e promover mudanças no local para facilitar o processo de aprendizagem.

Evidentemente, diferenciar a pedagogia não é tarefa fácil, já que tal empreitada exige um conhecimento mais amplo das diferentes abordagens pedagógicas, de mais tempo de preparação e de flexibilidade por parte do professor, para que o mesmo seja capaz de compreender e administrar as diferenças dos seus alunos. Porém, “se o objetivo é dar a todos chances de aprender, quaisquer que sejam sua origem social e seus recursos culturais, então uma pedagogia diferenciada é uma pedagogia racional” e, por essa razão, deve ser uma prática utilizada em toda sala de aula. Afinal, “diferenciar é lutar para que as desigualdades diante da escola se atenuem e, simultaneamente, para que o nível de ensino se eleve”.

*Publicado originalmente em Carta Fundamental