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As cidades carecem de uma escuta coletiva para suas muitas vozes

As principais atividades econômicas de uma cidade são muitas vezes transformadas em seu segundo nome. Temos, então, definições como “a capital do calçado”, “a cidade das malhas”, “a cidade das flores”. Como se o que é produzido e gera riqueza fosse o mais importante daquele espaço urbano.


No entanto, as cidades são muito mais do que as mercadorias que comercializam ou produzem em fábricas ou fazendas. As cidades são, ou deveriam ser, principalmente, as pessoas ‒ as quais, muitas vezes, permanecem excluídas das atividades socioeconômicas tidas como principais e da prosperidade gerada.

Na medida em que o mercado imobiliário avança sobre os centros urbanos, erguendo prédios de muitos andares, torres de escritórios e shoppings, boa parte de seus habitantes se concentra em suas bordas. Ou, em outras palavras, em suas periferias.

Embora excluídas da economia tradicional, ou apenas gravitando em torno de seu núcleo duro e impenetrável, essas pessoas também são elementos da cidade. Pertencem à sua complexa e intrincada estrutura tanto quanto os protagonistas da riqueza e do poder. Entretanto, esses personagens “dos entornos” são frequentemente esquecidos pelos gestores públicos, que picotam o cenário urbano com obras de infraestrutura, projetos faraônicos ou soluções artificiais que apenas mascaram seus problemas mais profundos, essenciais, orgânicos.

Dual, a cidade é centralmente moldada em prol dos interesses daqueles que a dominam e sempre a dominaram, enquanto perifericamente ela pulsa com as subjetividades produzidas pelos milhares de crianças, adolescentes, jovens e adultos, que nos becos, nas praças, nos microespaços em torno das escolas, protagonizam transformações que carregam em si os genes da luta e da solidariedade.

Fala-se tanto em gestão urbana, em territórios educadores, em empreendedorismo, mas as inovações tecnológicas efetivamente mobilizadoras e com alto potencial empreendedor, como os Fablabs, que permitiriam desenvolver novas formas de produção descentralizada e criativa, bem como as contribuições culturais da periferia, não recebem o fomento que lhes permitiria fluir com toda sua energia e capacidade transformadora.

Sabe-se que seria importante integrar a cidade entre si e as cidades umas às outras, estimular processos competitivos elevados, incentivar que novas cabeças, novos cidadãos ocupassem os espaços de influência. Todavia, a concentração de poder e um modelo de topografia social que não permite recriar novos polos socioeconômicos estão perenizando e alimentando as desigualdades.

A escola tem papel fundamental a desempenhar na metamorfose dessa sociedade, pois a educação é um dos fatores que auxiliam na construção de novas dinâmicas de percepção e de ocupação do espaço urbano, bem como de análise e de compreensão dos mecanismos que levam à pobreza e à exclusão.

Mais do que de soluções momentâneas, desgastadas, cosméticas, as cidades carecem de uma escuta coletiva para suas muitas vozes, de uma visão abrangente que perceba cada indivíduo como uma partícula de sua vida e de uma inteligência coletiva que pavimente o caminho rumo ao aumento da justiça social efetiva.

*José Luiz Adeve, o Cometa, é coordenador do Núcleo de Comunicação Comunitária da Fundação Tide Setubal, organização que trabalha há mais de dez anos pelo desenvolvimento local comunitário do bairro de São Miguel Paulista, na zona leste da cidade de São Paulo.