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A Declaração da III Conferência Regional da Educação Superior, aprovada dia 14 de junho na Universidade Nacional de Córdoba, nos convoca “a lutar por uma mudança radical por uma sociedade mais justa, democrática, igualitária e sustentável”. O encontro celebrou um século do movimento por reforma do ensino na Argentina, em que os estudantes proclamaram que “as dores que nos restam são as liberdades que nos faltam”. Pobreza, desigualdade, exclusão, injustiça e violência social são dores que existiam à época e que continuam existindo, constataram os participantes da conferência.


O noticiário internacional registra isso. O governo dos Estados Unidos saiu do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), embora propague ser o grande defensor da democracia no mundo. Antes, sob ordens do presidente ianque, Donald Trump, crianças foram separadas de seus pais e mães imigrantes. As crianças foram presas todas juntas em gaiolas, em condições subumanas. Dos 2.300 meninos e meninas engaiolados, 49 são brasileiros. Algumas crianças são muito pequenas, e podem não saber o nome completo de seus pais. O governo ilegítimo de Temer sequer se pronunciou.

Enquanto os EUA prendem crianças e seus pais, países europeus praticam xenofobia contra refugiados sírios, a Itália diz oficialmente que expulsará ciganos do seu território e Israel massacra palestinos no Oriente Médio, sob os olhares coniventes das maiores nações do mundo. É importante dizer que a situação dos refugiados no Brasil é também crítica, pois vivemos em um país com terríveis diferenças sociais.

Igualmente o noticiário nacional reflete a profunda crise do capitalismo e os ataques à liberdade no nosso país. O total de desempregados supera os 13 milhões de brasileiros. Na outra ponta da nossa sociedade tão desigual, o Brasil registrou 171.480 milionários em 2017, detentores de um patrimônio de US$ 4,5 trilhões – meros 0,8% da população de 209 milhões de mulheres e homens que aqui vivem.

A crise da sociedade explode em criminalidade e violência. Um garoto, Marcos Vinícius, de 14 anos foi morto quando se dirigia à escola, no dia 20 de junho, no Rio de Janeiro. Cerca de 15 mil crianças e jovens matriculados nas 44 escolas da Maré estavam em aulas quando a ação policial, utilizando inclusive helicópteros, foi realizada para caçar um bandido que assassinara um delegado, dias antes. “Dizem que a minha comunidade é violenta, ela não é violenta, é muito boa. Tem trabalhador indo e vindo, criança indo e voltando da escola. Eu estou enterrando meu filho, meu luto ainda nem chegou. Vai chegar na hora em que eu enterrar ele. E a morte dele não vai ser mais uma, nós vamos lutar por justiça. Operação naquele horário não é operação, é extermínio, invasão”, denunciou Bruna da Silva, mãe de Marcos.

De acordo com a ONG Redes da Maré, em 2017, os alunos ficaram 35 dias sem aula por causa da violência, na maioria das vezes durante operações policiais. Em 2016, foram 18 dias.
Daí não faltar razão à sociedade e aos profissionais do ensino que propõem a educação como um meio de igualdade e de ascensão social e não um lugar de reprodução de privilégios. A educação, a ciência, a tecnologia e as artes devem servir à liberdade e à igualdade, como propõe a declaração aprovada na Argentina. No entanto, o governo Temer, fruto de um golpe contra a democracia brasileira, caminha no sentido oposto, inclusive congelando por 20 anos os investimentos da União nesses setores.

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Para além dos problemas sempre denunciados na educação – falta de escolas, de qualificação e valorização dos profissionais, de segurança nos estabelecimentos de ensino etc. –, ainda nos deparamos com o alto índice de evasão, melhor dizendo, exclusão escolar. Levantamento do Instituto Ayrton Senna e do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) aponta que 2,8 milhões de jovens – com idades entre 15 e 17 anos – não se matricularam no início do ano letivo de 2018. São 27% de possíveis alunos, entre os 10 milhões de jovens nessa faixa etária que deveriam estar frequentando a escola.

De acordo com o IBGE, 80 milhões de brasileiros e brasileiras com 18 anos ou mais não concluíram a educação básica. A taxa de insucesso (a soma do abandono da escola com a reprovação) tem subido e se concentra, no ensino médio, após o 9º ano.

Segundo o Banco Mundial, 52% dos jovens brasileiros com idade entre 19 e 25 anos perderam o interesse pela escola e correm o risco de ficar fora do mercado de trabalho. Um em cada três brasileiros de 19 anos está hoje fora da escola.

Como se vê, são muitas as dores. Mas também sãos muitos os que lutam pelas liberdades, por uma sociedade que valorize o ser humano e construa a justiça social, com educação e saber. Atendamos à convocação da III Conferência Regional da Educação Superior.

Gilson Reis, professor