COMPARTILHE

Morto há mais de 30 anos, o norte-americano Philip K. Dick (1928-1982) torna-se cada vez mais estudado pelas universidades e mais conhecido pelo público leitor do mundo inteiro. Essa fama póstuma veio coroar com certa ironia uma vida inteira dedicada à literatura e perturbada pela falta de dinheiro, pelo uso desordenado de drogas e por uma série de casamentos tumultuados.


Dick foi um indivíduo com intensa capacidade de trabalho, mas não conseguiu se enquadrar nos modelos da literatura norte-americana do seu tempo. Leitor de revistas de pulp fiction desde garoto, descobriu um mercado para si dentro da ficção científica (FC), e foi no interior desse gênero que fez sua fama em seus últimos 20 anos de vida. Hoje, estão sendo finalmente publicados  seus romances mainstream (literatura realista, sem pertencer a nenhum gênero específico), que na época não interessaram a nenhum editor, ao mesmo tempo que novas interpretações de sua “visão do mundo” delirante não param de surgir.

O filme Blade Runner, o Caçador de Androides (Ridley Scott, 1982) foi certamente o divisor de águas na carreira de Dick, revelando-o ao grande público – por ironia, no momento em que ele morreu, aos 54 anos, vítima de um acidente vascular cerebral (AVC). Vários contos ou romances seus têm sido adaptados para o cinema.

A Editora Aleph (São Paulo), que vem lançando sua obra no Brasil, produziu uma coletânea (Realidades Adaptadas, 2012) reunindo sete contos que foram transformados em filmes, entre eles O Relatório Minoritário (filmado por Steven Spielberg como Minority Report – A Nova Lei, 2002) e Lembramos para Você a Preço de Atacado (filmado por Paul Verhoeven como O Vingador do Futuro, 1990).

Do Androids Dream of Electric Sheep? (Será Que os Androides Sonham com Carneiros Elétricos?) é o livro que deu origem ao filme Blade Runner. Embora a ideia central tenha se mantido (um policial encarregado de matar androides que se rebelaram, numa cidade poluída do futuro), existe uma série de elementos importantes do livro que o filme preferiu deixar de lado.

A obra que Dick deixou é extensa: mais de 40 romances e várias coletâneas de contos, além de uma enorme correspondência, muitos ensaios e entrevistas. Vários dos romances só vieram a ser publicados anos após sua morte. Grande parte de sua obra teve primeiras edições em livrinhos de bolso de coleções baratas, e hoje existe nos EUA o Prêmio Philip K. Dick, concedido ao melhor livro de cada ano, cuja primeira edição se deu nesse mercado pouco valorizado.

Seu método habitual de produção era amadurecer uma ideia durante semanas ou meses e escrever o livro – um romance com 200 ou 250 páginas em média – em jornadas de trabalho que podiam durar de 18 a 20 horas ininterruptas, com breves intervalos para dormir. Isso dá aos seus livros, mesmos os mais elaborados, um tom coloquial e direto, realçado pela espontaneidade dos diálogos que usa. Seus enredos são sujeitos a uma imprevisibilidade permanente – a cada momento pode acontecer algo aparentemente absurdo, mas totalmente integrado à lógica interna da narrativa.

Um crítico já afirmou que se pode começar a ler Philip K. Dick por qualquer uma de suas obras, pois ele era um escritor obsessivo, que voltava reiteradamente a explorar um certo número de temas, de modo que todo seu pensamento e suas principais ideias estão presentes em cada um dos seus livros. Neste artigo, farei um breve apanhado desses temas e do modo como Blade Runner os explora.

Ficção Científica

Os temas recorrentes de Philip K. Dick são:

Os seres artificiais
No futuro descrito por Dick em Blade Runner, as crises ambientais dizimaram praticamente todas as espécies animais do planeta, mas com o avanço da cibernética esses animais podem ser reconstruídos artificialmente. Desse modo, as pessoas continuam tendo animais de estimação, mas somente os milionários podem ter animais de verdade, que são raríssimos e custam verdadeiras fortunas. O destino dos bichos é comparado ao dos humanos, dando a entender que num futuro tecnológico será cada vez mais difícil encontrar uma criatura de verdade (essa situação dá origem ao título do livro).

O homem e a máquina
Qual a diferença entre um ser humano e uma máquina inteligente? Em Blade Runner, Dick focaliza esse problema na figura do replicante ou androide, um ser artificial com aparência humana que à primeira vista não pode se distinguir de uma pessoa. Rick Deckard (interpretado no filme por Harrison Ford) precisa localizar na Los Angeles do futuro um grupo de replicantes que se revoltaram contra a autoridade dos humanos. Eles têm inteligência brilhante e um corpo muito mais forte e resistente que o nosso (foram criados para trabalhar como operários em outros planetas, sob condições dificílimas), mas têm uma vida útil muito curta.

São um espelho irônico de nossa própria condição: o que seria melhor para nós, viver uma vida longa como seres humanos comuns, ou viver uma vida curtíssima, mas sermos dotados de inteligência excepcional e poder físico assombroso? No livro, Deckard, ouvindo a música de Mozart, lembra da genialidade do compositor: “Ele imaginou se Mozart teria tido alguma intuição de que não haveria um longo futuro para ele, que ele já tinha usado o pouco tempo de vida de que dispunha”.

A compaixão e a empatia
Um tema frequente em Dick é a necessidade de empatia entre os seres humanos, a “com/paixão”, entendida não como mera piedade, mas como capacidade de se identificar totalmente com os sentimentos de alguém. Essa seria, para ele, a qualidade humana mais elevada. Em romances e ensaios ele contrapôs a mentalidade dos insetos, para quem as outras criaturas só importam como possíveis ameaças ou possíveis alimentos, e a mentalidade da mulher carinhosa, compreensiva, que ele retratava como a “garota de cabelos escuros” (“the dark-haired girl”).

Para Dick, um androide capaz de sentir compaixão ou piedade seria mais humano do que um homem de origem biológica que tratasse com crueldade e indiferença seus semelhantes. Deckard comenta: “As coisinhas elétricas também têm suas vidas, por mais patéticas que sejam”.

Personagens comuns
Num gênero como a FC, é comum a presença de protagonistas que são super-heróis, ou comandantes de frotas estelares, ou herdeiros de impérios galácticos. Nos livros de P. K. Dick, os personagens são em geral pessoas de classe média, com problemas de classe média: arranjar (ou manter) um emprego, pagar dívidas, pedir dinheiro emprestado, conseguir uma promoção… Mesmo quando ele escolhe um protagonista entre os ricos e poderosos, como o milionário apresentador de tevê de Fluam, Minhas Lágrimas, Disse o Policial, é para despojá-lo até da identidade e transformá-lo num joão-ninguém procurado pela polícia. Existe amor nos seus livros, mas geralmente num contexto de casamentos problemáticos, em via de ir pelos ares. Muitos dos seus protagonistas ficam divididos entre uma mulher autoritária e exploradora e outra que se mostra acolhedora e companheira.

O que é real?
É frequente, na obra de Dick, que os personagens estejam vivendo uma vida aparentemente normal e descubram de repente que tudo aquilo era uma ilusão produzida por alguém. Filmes como O Show de Truman, de Peter Weir, e Matrix, dos irmãos Warchovski, são homenagens explícitas ao modo extremamente pessoal como Dick introduziu esse tema na ficção científica. Em Blade Runner, isso se manifesta no fato de que Rick Deckard, o matador de replicantes, vive o tempo inteiro tomado pela suspeita de que ele próprio seja um androide – o que, se for verdade, vai virar de pernas para o ar o seu mundo.

A paranoia
Philip K. Dick viveu na Califórnia durante as décadas de 1960 e 70, quando a cultura das drogas estava no auge. Segundo os biógrafos, suas drogas preferidas eram pílulas tranquilizantes ou estimulantes das que se vendem em qualquer farmácia. Ele teve várias experiências de visões místicas, e teve também uma paranoia recorrente de que estava sendo perseguido pela polícia ou investigado pelo FBI. Muitos dos protagonistas dos seus livros vivem sob a sensação permanente de que existem forças poderosas querendo destruí-los, ou de que são vítimas de algum tipo de conspiração. Rick Deckard, em Blade Runner, é manipulado pela polícia, pela esposa, pela tevê; não consegue confiar em ninguém.

O entretenimento
Dick era um crítico feroz do consumismo e da superficialidade da vida norte-americana. No livro Blade Runner ele contrapõe dois usos da telecomunicação: o interminável programa de tevê de Buster Friendly, sempre com números bobos e entrevistas superficiais, e a religião do Mercerismo, onde as pessoas plugam-se a receptores que acompanham a interminável subida de um homem, Mercer, pela encosta de uma montanha, sendo apedrejado (fazendo um paralelo com a subida de Cristo ao Calvário). Deckard rejeita Buster Friendly e admira Mercer, mas não pode deixar de questionar se essa transmissão aparentemente tão humanista não será também uma encenação para enganá-lo.

*Publicado originalmente em Carta Fundamental