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Umberto Eco, que nos deixou em 16 de fevereiro deste ano

Qual a importância do conhecimento? Para que serve o saber? Poucas pessoas acumularam tanto conhecimento e tanta sabedoria como o escritor, filósofo, professor e semiólogo italiano Umberto Eco, que recentemente nos deixou. Dono de uma memória prodigiosa, Eco citava passagens referentes tanto ao Ulisses de Homero como ao Ulisses de Joyce, tanto a filosofia escolástica de São Tomás de Aquino como o desconstrucionismo de Derrida. Mas um verbete de enciclopédia, que não germine na sociedade e não produza frutos, tem pouca ou nenhuma importância.


De que me vale saber todas as capitais dos países da África, se pouco ou nada compreendo a respeito dos dramas sociopolíticos que afligem esse continente? Eco não desfilava apenas conceitos ou verbetes enciclopédicos, mas os fazia viver nos seus brilhantes ensaios e nas suas bem humoradas crônicas, transportando-os para a atualidade, demonstrando mais uma vez o quanto é importante interpretar o passado para entender o presente (e especular com propriedade e coerência sobre o futuro).

Como interpretar coerentemente o conhecimento adquirido pela humanidade ao longo dos séculos? Para responder a esta questão, o brilhante intelectual nascido em Alessandria (que em italiano se pronuncia Alessándria e não Alessandría, como erroneamente boa parte da mídia brasileira tem divulgado) empregou grande parte da sua vida acadêmica e intelectual. Desde Obra aberta, o livro que o consagrou ainda muito jovem, ele procurou ressaltar que as interpretações podem e devem ser múltiplas, mas precisam ser coerentes e fiéis ao texto que se quer analisar. Sendo assim, a “abertura” às múltiplas interpretações da obra juvenil de 1962 é de certo modo “corrigida” pelo apelo à coerência e à fidelidade ao texto no livro Os limites da interpretação, de 1990.

O que se deve interpretar? Quem tem a missão de interpretar e transmitir os resultados aos demais? Como transmitir tais resultados? Todas essas questões também constituíram a tônica dos livros de Eco, seja os de ficção, seja os teóricos. De que realidade podemos falar? Será que existe uma única realidade para todos? A verdade absoluta, objeto de investigação do filósofo, existe e deve ser comunicada a todos, tanto aos demais literatos e intelectuais, quanto aos comuns mortais?

'O Nome da Rosa', de 1986, com Sean Connery e Christian Slater
‘O Nome da Rosa’, de 1986, com Sean Connery e Christian Slater

No best-seller universal O nome da rosa, Guilherme de Baskerville, o detetive-mestre que com tanta argúcia e perspicácia investigou e desvendou os crimes que abalavam o mosteiro, no fim do romance diz ao discípulo Adso que é preciso se libertar das verdades absolutas, e que a sabedoria, ainda que fundamental e necessária, é apenas uma escada que conduz a algum lugar. Uma vez que se chega a tal lugar, é preciso abandonar a escada e basta! O que se chama de realidade é, portanto, uma ilusão.

O que se chama de verdade constitui outra ilusão, em nome da qual os seres humanos chegaram (e ainda chegam) a cometer genocídios e atrocidades de todos os tipos. Da busca insensata da verdade absoluta precisamos, portanto, nos libertar. Enfim, a única realidade cognoscível e que merece ser interpretada é a dos signos (o que explica a dedicação apaixonada de Eco pelo estudo da semiótica).

Quem deve transmitir o conhecimento? Em um magnífico ensaio intitulado Norberto Bobbio: a missão do douto revisitada, dedicado ao grande cientista social italiano, Eco analisa o significado da função intelectual, concluindo que só exerce função intelectual quem possui autocrítica e usa a criatividade para acrescentar algo novo ao conhecimento humano. Sendo assim, o professor que em sala de aula se limita a reproduzir o que outros já disseram ou o ensaísta que em seu trabalho nada acrescenta a determinado assunto, apenas repetindo o já dito, podem até ter alguma importância, mas não exercem uma verdadeira função intelectual.

Ser capaz de criar, reconhecendo os próprios limites e imperfeições por meio de uma boa dose de autocrítica, constitui, portanto, a virtude de um verdadeiro intelectual. O palavreado retórico e vazio de um político, por exemplo, repleto de verdades aparentemente irrefutáveis e absolutas, não constitui um discurso intelectual. Citando Bobbio, Eco lembra que é dever do homem sábio (ou douto) espalhar dúvidas, e não verdades, criando as crises, sem necessariamente resolvê-las.

Uma vez que o escritor infelizmente não mais se encontra entre nós, os poucos detratores de Eco poderão continuar a objetar, talvez até com mais veemência, que quem quer conhecer tudo acaba conhecendo nada. Talvez demonstrem, porém, arrependimento e revejam as suas afirmações, como muitas vezes acontece. Nós, que admirávamos os seus livros e todos os seus escritos, continuaremos a admirá-los, talvez ainda mais. Certamente, a lucidez de Umberto Eco já está fazendo falta! 

 

*Sérgio Mauro é professor doutor de literatura italiana na Unesp de Araraquara desde 1986. Possui pós-doutorado em literatura italiana realizado na Univesidade de Bolonha, Itália, e atualmente pesquisa sobre as relações entre as ciências e a literatura italiana.

*Claudia Fernanda de Campos Mauro é professora doutora em literatura italiana na Unesp de Araraquara desde 2002. Possui pós-doutorado na Universidade de Florença, Itália, e pesquisa sobre o fantástico e a memória na literatura italiana.